ARGÉLIA E A ARTE DE TER MAIS TEMPO
- Apr 18, 2018
- 5 min read

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
Fernando Pessoa
Faz tempo que pisei o solo argelino pela primeira vez. Foi em Junho de 2004. Esperava encontrar um país destroçado pela guerra civil, com pessoas traumatizadas e a suficiente insegurança na rua. Percebi que essa ideia préconcebida estava errada. Percebi é que o tempo aqui era outro.
Tive a sorte, de ter sido recebido no aeroporto por um argelino que casado com uma portuguesa, o que fez toda a diferença para que o primeiro contacto, tivesse um sabor meio lusitano. A simpatia discreta deste primeiro acolhimento permanece ainda hoje na minha memória como a forma mais cautelosa da recepção típica de uma sociedade acolhedora mas prudente.
Vim à procura das possíveis oportunidades de negocio e ao dar os primeiros passos, de imediato apercebi-me que a Argélia em termos temporais era parecido com Portugal há 30 anos atrás. Fascinou-me a hipótese de poder reviver um tempo conhecido, mas agora com a vantagem de experiencia adquirida sobre esse tempo. Uma espécie de regresso ao passado.
Também veio-me à memória outro tempo, contado pelo meu irmão, em que nos anos oitenta andou pela Argélia de bicicleta. Antes da guerra civil, antes também de Portugal ter a maior densidade de auto-estradas do mundo, antes mesmo de termos uma Expo, uma Ponte Vasco da Gama, comboio na Ponte 25 de Abril, estádios do Taveira, mais que uma linha de Metro em Lisboa, televisão por cabo, telefone móvel pré pago e um numero de Centros Comerciais de fazer inveja qualquer país da Europa. Nesse tempo, recordo ainda a narrativa do meu irmão quando se referia ao povo argelino como sendo gente extremamente acolhedora e calorosa, foi sem duvida uma experiencia muito agradável de recordar. Depois, a guerra civil fez a Argélia recuar no tempo o que contribuiu para que Portugal se distanciasse ainda mais deste país que serviu de exilio a Manuel Alegre e de onde partiram as emissões da "A Voz da Liberdade" em onda curta da Radio de Argel, na luta contra a ditadura instalada em Portugal.
Acabei por ir ficando e reviver em muitos aspectos um tempo que já tinha vivido. Havia (e há) tanto para fazer neste país. Concluí que a minha vantagem competitiva era a experiencia de já ter vivido o tempo que a Argélia estava a começar a viver, mas agora com muita mais experiencia do que há trinta anos atrás. Certamente com a vantagem de não se cometer os erros outrora experienciados.
Enganei-me pela primeira vez sobre este tempo. Calculei erradamente porque esse tempo de atraso na Argélia era devido à conotação de país terceiro mundista. De país africano com um passado de uma guerra civil ainda vivo na memória colectiva.
Mas este tempo era também o tempo necessário para olhar as coisas de uma outra forma.
Comecei por comprender que em Argel o tempo para me deslocar de um lado para o outro era muito maior do que estimava. Programar reuniões era na melhor das hipóteses conseguir ter uma reunião de manhã e outra reunião à tarde. Um dia, consegui ter quatro reuniões fora do meu escritório no mesmo dia, o meu assistente argelino, ficou incrédulo.
Comecei a perceber que a tolerancia para os atrasos aos compromissos era de várias horas e que o transito era a desculpa ideal para todo o incumprimento de horarios, incumprimento de compromissos e muitas vezes até dum incumprimento de memória. Adaptei-me de tal maneira que dei por mim em Portugal a chegar às reuniões com quinze minutos de atraso em vez chegar dos cinco minutos de antecedencia como gosto de fazer. Descobri mais tarde que esta tolerancia é uma forma de vida que convida ao convivio e às ligações emocionais, de que tanto se fala agora no mundo ocidental nomeadamente sobre o novo indice de "inteligência emocional".
Na Argélia, um encontro entre desconhecidos é um ritual de procura. Procura-se no tempo passado as origens, os antepassados, a familia, os amigos, o local de nascimento e as actividades de cada um, esse ritual é o inicio do encontro de aonde a nossa rede de contactos consegue tocar a rede de contactos do outro. Uma espécie de "linkedin" tradicional, consolidado em muitos séculos de contactos comerciais na zona do Mediterrâneo. Esse tempo despendido na procura de pontos comuns parece-nos a nós um tempo desnecessariamente longo, uma perda de tempo a falar aparentemente de banalidades ou até de futilidades. Incorrecto. Este é o tempo necessário para estabelecer ligações que permitem a troca vantajosa, ou não, de conhecimento ou factos que potenciem algum beneficio, seja ele financeiro, de favores ou mesmo de oportunidades. É também o tempo de encontrar un circuito de contactos que possa validar a credibilidade do interlocutor.
Sabendo que com tempo será quase sempre possível encontrar alguns pontos em comum, este ritual é usado com muita frequência. Falar (ou se preferirem comunicar) horas a fio não é só um passatempo, é uma necessidade cultural para o avanço social e profissional.
Afinal este tempo é uma outra forma, talvez até mais sábia e pelos vistos avançada, de fazer contactos sociais e profissionais sem a necessidade do Facebook ou do Linkedin.
Descobri também que na Argélia é importante e necessário saber esperar.
Que o tempo necessário para cumprir um plano quinquenal é um múltiplo de cinco anos necessário para o fazer, e que a melhor forma de negociar é ter tempo.
A segunda vez que me enganei com o tempo foi o de pensar que na Argélia o tempo era dinheiro, calculado em taxas de juros bancários como ensinado nos MBA de gestão. Também é, mas essencialmente por uma burocracia que tarda a sair, por se agarrar ainda a um tempo de uma burocracia pesada, uma burocracia dependente de "à consideração superior". Mas aonde me enganei mesmo, é que o tempo na Argélia é dinheiro e poder, não pela rentabilidade do dinheiro mas sim porque decidir sem pressas diminui o risco de engano e da perda de dinheiro e aumenta a pressão no parceiro que precisa de efectuar o negocio rapidamente.
Descobri que na Argélia ter o tempo a nosso favor é sempre a melhor forma de negociar.O tempo é a forma de optimizar técnicamente e financeiramente todas as propostas e negócios.
O segredo é aprender como ter o tempo em nosso favor. Como conseguir o tal tempo.
O tempo de decisão é grande, demasiado para os nossos hábitos "ocidentais", mas é o tempo necessário para escolher bem o modelo de negócio, de parceiro e preço. "doucement mais surement" é a explicação corrente dos argelinos para este tempo.
Por fim, não posso deixar de referenciar o tempo que faz falta na Argélia. O tempo de ensinar um país que cresceu de aproximadamente dez milhões de cidadãos em 1960, para quase 40 milhões passados cinquenta anos. Na minha opinião não houve tempo de formar correctamente os professores que ensinaram os professores de agora. Isso reflete-se no nivel de formação existente que a Argélia tenta aumentar com a multiplicação de esforços numa rede de universidades gigantesca e até na criação de um novo ministério, o da "formação profissional". Não há tempo a perder nesta área.
Igualmente de salientar que o tempo na Argélia é o da juventude. Um país em que cinquenta por cento da população tem menos de vinte e cinco anos, é uma realidade importante na análise estratégica do futuro na Argélia.
Temos de pensar o que isso representa no que respeita às ambições e desejos de uma população que tem tanto para construir e que deseja rapidamente ser uma referencia não só por ser o maior país de África mas que ambiciona ser um grande actor ao nivel do Mediterrâneo e de África.
O tempo na Argélia é inexplicavelmente intenso porque há muito a fazer, apesar de nessa intensidade haver sem duvida um tempo de decisão muito diferente do que estamos habituados.
Quem quiser ter sucesso na Argélia tem de aprender a viver com esse tempo.

Joaquim Nogueira de Almeida
Eng Civil & Empresário em Portugal e na Argélia



Comments